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Espécies invasoras chegam à Amazônia; desafio é evitar que se espalhem

Espécies invasoras chegam à Amazônia; desafio é evitar que se espalhem

Espécies invasoras chegam à Amazônia; desafio é evitar que se espalhem

Nativo da Europa, Ásia e África, o javali tornou-se um problema no Brasil ao destruir lavouras, predar animais e causar danos à vegetação

*O artigo foi escrito pelo doutor em Biologia Igor Yuri Fernandes; pela pesquisadora Clarissa Alves da Rosa, do INPA; pelos professores Filipe Machado França (University of Bristol), Leandro Juen (UFPA); Thaisa Sala Michelan (UFPA) e Nivia Glaucia Pinto Pereira, diretora de Gestão Socieconômica SEMAS/PA, e publicado na plataforma The Conversation Brasil.

Quando pensamos em ameaças à biodiversidade amazônica, é comum imaginarmos desmatamento, fogo, mineração, garimpo, mudanças climáticas e grandes obras de infraestrutura. Todas essas pressões são reais e urgentes. Mas há outra ameaça, menos visível no debate público, às vezes mascarada em formas carismáticas e do nosso convívio, mas que avança de forma silenciosa: a introdução e a expansão de espécies exóticas invasoras na Amazônia.

Essas espécies podem parecer inofensivas no início. Uma planta usada para deixar o quintal mais bonito ou uma muda usada para recuperação de áreas degradadas. Um animal criado para a caça ou para a produção. O problema começa quando esses organismos escapam do controle, estabelecem populações viáveis e passam a se espalhar para ambientes onde não ocorriam naturalmente.

A partir desse ponto, a invasão biológica deixa de ser apenas um problema ecológico. Ela pode afetar lavouras, rios, áreas protegidas, unidades de conservação, infraestrutura, saúde pública, abastecimento de água, restauração florestal, a produção de alimentos e os modos de vida de populações locais.

Foi nesse contexto que elaboramos o Guia de Espécies Exóticas Invasoras da Amazônia Legal, publicação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Sínteses da Biodiversidade Amazônica, INCT-SinBiAm. O guia reúne informações sobre espécies exóticas invasoras registradas na Amazônia Legal, partir de dados científicos disponíveis, incluindo uma lista publicada por Rafael D. Zenni e colaboradores em 2024 e duas consultas públicas conduzidas pelo INCT-SinBiAm.

Essas consultas reuniram especialistas, pesquisadores e colaboradores de diferentes áreas e regiões do Brasil. O processo resultou na compilação de uma lista de 141 espécies exóticas invasoras para a Amazônia Legal, sendo 82 animais e 59 plantas.

A principal mensagem do guia é simples: conhecer é o primeiro passo, mas não basta. É preciso prevenir novas introduções, detectar rapidamente as espécies que chegaram, agir antes que se espalhem e integrar a pesquisa, a gestão e a sociedade.

No mundo, os custos econômicos associados às espécies exóticas invasoras já ultrapassam US$ 423 bilhões por ano, segundo o relatório global da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES). No Brasil, uma primeira avaliação estimou pelo menos US$ 105,53 bilhões em custos acumulados entre 1984 e 2019, dos quais a maior parte correspondeu a danos e perdas, e não a investimentos em prevenção, controle ou erradicação.

Essa diferença é importante. Ela mostra que, em geral, pagamos muito mais caro quando agimos tarde. No caso das invasões biológicas, a melhor estratégia quase sempre é evitar a sua entrada. Quando a espécie já chegou, a resposta precisa ser rápida. Quanto mais cedo ocorre a detecção, maior a chance de erradicação ou de controle. Quando a espécie se espalha, o custo aumenta, a remoção se torna difícil e os impactos podem se tornar permanentes.

O Ministério do Meio Ambiente reconhece as espécies exóticas invasoras como uma das grandes ameaças ao meio ambiente, com impactos sobre biodiversidade, ecossistemas naturais, serviços ambientais, saúde, economia e patrimônio genético. Na Amazônia, essa preocupação ganha uma dimensão particular porque a região combina alta biodiversidade, grandes áreas ainda conservadas, forte dependência dos recursos naturais e o rápido avanço de atividades humanas em algumas fronteiras de ocupação.

Um exemplo que ajuda a entender o problema é o javali, Sus scrofa, e suas formas híbridas conhecidas como javaporco. A espécie é nativa da Europa, Ásia e África, mas foi introduzida em diferentes regiões do mundo associada à criação comercial e à caça. No Brasil, tornou-se um dos casos mais conhecidos de invasão por mamíferos.

Os impactos da invasão de javalis incluem destruição de lavouras, predação de animais nativos e de criações, impedimento da regeneração da vegetação e transmissão de doenças. No guia, a espécie aparece como uma das invasoras de interesse para a Amazônia Legal, justamente pela combinação entre a capacidade de expansão e os impactos potenciais sobre ambientes naturais e produtivos. E, considerando a grande escala territorial da região, a detecção precoce depende de redes locais, monitoramento, formação de equipes e comunicação rápida entre instituições.

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