A vida ensina, basta ouvi-lá: Educação indígena em Goiás é lição para o Brasil

Há uma diferença entre visitar um lugar e ser acolhido por ele. Entre observar e escutar. Entre registrar e compreender. A equipe do Jornal Opção passou dias dentro de dois territórios indígenas goianos e saiu de lá não apenas com entrevistas, mas com uma ligeira sensação de deslocamento, aquela que acontece quando você percebe que o mundo pode ser organizado de outra maneira. Não melhor nem pior. Apenas outra. E essa outra forma, que resiste há mais de quinhentos anos, está agora, ensinando ao restante do país o que significa educar.
Ser indígena no Brasil é carregar a origem de tudo que nós, como brasileiros, somos. Miscigenados de um povo que jamais deixou de lutar, que persevera com uma garra que as páginas dos livros raramente conseguem traduzir, e que nutre pela vida um respeito tão profundo que chega a ser desconcertante para quem foi criado na lógica da pressa e do consumo. Trabalham em conjunto com a vida, com a fauna e a flora. Admiram e respeitam os animais. Trazem um contato de humano para humano, feito de palavras e legados que não podem, não devem, ser esquecidos.
Os ensinamentos são a base de tudo. E é neles que os colégios indígenas de Goiás se alicerçam. Foi nessa fascinação pela garra bonita dos povos originários que nossa equipe viajou e vivenciou uma pequena fresta da força e da inteligência dessas comunidades.

Em Goiás, há atualmente três povos indígenas aldeados. Os Iny, conhecidos como Karajá, que vivem às margens do Rio Araguaia, em Aruanã. Os Tapuia do Carretão, localizados entre Nova América e Rubiataba, na região central do estado. E os Avá-Canoeiro, em Minaçu, povo de contato tardio e história pontuada por perseguições. Cada um desses povos carrega um jeito próprio de estar no mundo, mas todos partilham uma característica comum: a decisão inegociável de permanecerem sendo quem são.
O Censo Demográfico de 2022 registrou, apenas em Goiás, 211 etnias indígenas, 68 a mais que no levantamento anterior. O estado é o quinto com maior diversidade étnica do país. A etnia Karajá é a mais populosa entre os aldeados, com 1.260 pessoas declaradas, seguida pelos Xavante, Tapuia e Guarani. Mas os números, embora impressionantes, são apenas a superfície de uma realidade muito mais complexa, feita de territórios ameaçados, línguas em risco e uma vontade coletiva de virar o jogo.
A localização de cada Terra Indígena goiana conta um pedaço da história do Brasil. Revela o processo de conquista do interior pelos colonizadores, as políticas de ocupação, a violência contra os corpos e as culturas. E, ao mesmo tempo, desenha o mapa de uma resiliência que vai sendo fortalecida nos projetos de futuro que cada povo constrói para si. A educação é o centro desse projeto.
Uma semente brotou na beira do rio
O Colégio Estadual Indígena Maurehi fica na Aldeia Buridina, território do povo Iny, dentro do município de Aruanã. A escola fica cercada pela cidade mas não é cercada por muros. As salas são convidativas. Os macacos às vezes atravessam o pátio. O rio está logo ali, presente como uma extensão do prédio.
Quem nos recebe é Valdirene Leão Gomes Cruz. Ela é cacique e gestora do colégio. É também a primeira mulher a liderar a comunidade. Quando fala, suas palavras carregam a densidade de quem aprendeu a equilibrar a doçura com a firmeza. “A escola é comunidade, a comunidade é escola. Tudo está interligado, não existe nada separado”, diz, enquanto seus olhos acompanham o movimento dos alunos no contraturno. “Aqui não existe evasão de aluno. Ontem mesmo, alguns alunos estavam com os pais pescando. Mas está tudo ali, interligado.”

A fala de Valdirene desmonta, com simplicidade, uma das maiores angústias do sistema educacional brasileiro: a evasão escolar. No Maurehi, se o aluno foi pescar, ele não “faltou”, ele vivenciou algo que a matriz curricular reconhece como pedagógico. A pesca, o artesanato, a ida ao rio, a escuta dos mais velhos, tudo está conectado. “Muitas vezes as pessoas acham: ‘está evadindo, está saindo da sala de aula, isso não está legal’. Mas não é assim. É diferente. Aqueles que não conhecem acham que está errado, mas é tudo diferente”, explica.

A história do Maurehi começa com um gesto de resistência. Com o passar do tempo, a prefeitura foi loteando e vendendo as terras da Aldeia Buridina para terceiros. O cemitério onde os ancestrais estavam enterrados foi violado, e os ossos, jogados no rio. “Isso foi uma violação muito grande para a gente. Eu sempre falo: se nós indígenas entrássemos no cemitério de não indígenas e fizéssemos o que fizeram com os nossos ancestrais, o que seria feito com a gente? Estariam processados, presos. Mas nós, não”, conta Valdirene, com uma tristeza que não se transforma em raiva, mas em determinação.
Diante do avanço da cidade sobre o território, o antigo cacique Raul Jacinto Maurehi, tio de Valdirene, teve uma preocupação que se tornaria profética: “‘Nossa aldeia está sendo invadida, loteada. Como vai ficar a nossa cultura? A nossa língua materna? Os nossos artesanatos?’”. A resposta foi a escola. Começou como uma palhoça, uma cabaninha pequena.
O primeiro professor indígena foi Albertino Wajureni, que deu aulas mesmo sem graduação, até se formar. “Começou a história do resgate da cultura do povo Iny. Uma escola bilíngue, onde a mulher fala de uma forma e o homem de outra. As aulas são divididas”, conta Valdirene.
O Inyrybé, a língua do povo Iny, tem duas variantes: a fala feminina e a masculina. Por isso, no Maurehi, há uma professora para as meninas e um professor para os meninos. “É totalmente específico do povo Iny”, reforça a cacique. A jornada escolar é ampliada. Pela manhã, as disciplinas regulares. À tarde, até às 14 horas, o trabalho é com a cultura. “Foi um avanço muito grande do Estado ter reconhecido a necessidade da gente ampliar mais um pouco para ter somente a aula da cultura”, diz Valdirene.

No contraturno, as crianças aprendem a fazer as Ritxòkò, bonecas de barro que são patrimônio cultural do povo Iny. A argila, que antes era retirada da beira do rio, hoje precisa ser comprada na Cidade de Goiás, porque o maquinário das fazendas drenou a água e acabou com o barro local. “Tudo é dinheiro agora. A gente está batalhando para ter um recurso próprio, via Estado, para comprar as matérias-primas: a argila, as miçangas, a madeira”, explica a cacique.
Apesar das dificuldades, o trabalho continua. Os alunos confeccionam as peças, que depois são expostas no museu ao lado da escola. Quando vendidas, a renda é revertida para as crianças. “Como incentivo para eles comprarem o picolé, os trenzinhos. É um meio de subsistência, um meio de eles aprenderem e ajudarem financeiramente a família”, conta Valdirene.
A menina que chegou quebrada e saiu inteira
Há uma história que Valdirene gosta de contar, e que resume o que o Maurehi pode ensinar ao Brasil. Uma estudante não indígena, de 13 anos, chegou à escola no nono ano. “Ela estava muito estressada, muito no celular. A gente via que ela estava ali, ansiosa”, lembra. A menina começou a fazer os artesanatos com a professora indígena. Enquanto produzia, ouvia as histórias, porque cada grafismo tem um mito, um significado, um porquê. “Não é um simples desenho. É um grafismo que tem a sua história.”
A menina se envolveu. Aprendeu a fazer cestaria com palha de buriti. Um dia, a mãe procurou a escola para agradecer. Contou que a filha estava dormindo mais cedo, acordando com disposição para estudar. “Mudou o comportamento dentro de casa. E ela falou: ‘quando eu disse que ia colocar minha filha na escola indígena, me disseram que os índios matam, roubam, são preguiçosos, é uma escola que não tem futuro’. E essa mãezinha agradeceu a gente”, relata Valdirene, com os olhos marejados.
Hoje, a menina terminou o ensino médio e decidiu cursar pedagogia. “Ela falou: ‘tia, eu quero ser pedagoga’. E eu falei: graças a Deus. ‘Ah, mas isso é fácil’. Não, não é. Mas quando você faz com amor, as coisas fluem por si só. Não precisa ter muita regra. Fazemos por amor.”
O momento ilustrou um debate mais que necessário. “A doença psicológica está muito avançada. Nossos alunos, a sociedade toda, está muito envolvida com celular, Instagram, Facebook. Muitas vezes, essas crianças só querem uma atenção”, reflete a cacique. “Os pais trabalham o dia inteiro e não chegam para contar uma história para o filho. Aqui, o professor indígena chega e vai contar história. Vai ouvir a pessoa. E muitas vezes é tudo que um aluno precisa.”
O rio, a língua e a memória
A professora Ana Cristina Kawina dos Santos nasceu e cresceu na Aldeia Buridina. Hoje, leciona geografia e história, a parte “Tori”, como os Iny chamam os conhecimentos dos não indígenas. Mas a sua preocupação é com a língua. “Eu sou daquela geração que perdeu a linguagem. A gente não fala o Iny fluentemente. E isso é uma preocupação: manter a linguagem viva através da escola.”
Ela conta que muitos jovens, por causa da discriminação que sofrem fora da aldeia, às vezes têm vergonha de mostrar que pertencem à comunidade Iny. “Essa é a nossa preocupação: manter a linguagem, os artesanatos, a cultura.”
O professor Ijararu Gedeon Karajá trabalha exclusivamente com os meninos. “As meninas mexem com barro, fazem boneca. Os meninos fazem colagem, cocar, arco e flecha.” Para ele, o que está em jogo é a própria identidade. “Se a língua sumir, o povo também vai desaparecer. A gente faz esse trabalho para que os alunos ensinem as outras crianças que estão vindo, para não perder a nossa tradição.”

A professora Loiwa Damasia Karajá, que dá aulas de ciências, geografia, sociologia e artes, resume a sensação de ensinar no Maurehi: “Por eu ser indígena, acredito que inspiro os meninos mais jovens, as meninas mais novas, a continuar com os estudos, a valorizar os estudos. Eu me sinto muito importante”.
Há também as vozes que estão começando. Cátia Kabitahiru Karajá é aluna do EJA (Educação de Jovens e Adultos) que funciona à noite no colégio. Ela fala pouco português; a entrevista foi traduzida ao vivo pela professora Loiwa.
“Eu decidi voltar para a escola para aprender mais. Falar português é muito difícil. Minha mãe não sabe, só meu pai. Mas eu quero ser enfermeira. Minha tia é enfermeira, meu pai é técnico de farmácia. Eu olhava e achava bonito eles cuidando das pessoas.” Cátia tem um filho pequeno, que fica com a avó enquanto ela estuda. “Todo mundo está trabalhando. Eu só estudo mesmo, recebendo bolsa família. Mas meu sonho é ser enfermeira.”
O coração da política pública
Nada disso acontece por acaso. Por trás da arquitetura aberta do Maurehi, das aulas de Inyrybé, das Ritxòkò sendo moldadas pelas mãos das crianças, há uma estrutura de Estado que aprendeu a ouvir. A Gerência de Educação do Campo, Indígena e Quilombola da Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc) é o órgão responsável por traduzir as demandas das comunidades em políticas que saem do papel.
Valéria Cavalcante da Silva Souza, gerente da pasta, nos recebe com a energia de quem encontrou o propósito da própria carreira. “Essa escola nasce para o atendimento ao povo Iny. E ela vem para dentro desse território para atender todo o povo Iny do estado de Goiás”, explica, enquanto caminhamos pelo pátio. “O colégio nasce junto com o Projeto Maurehi, que vem para a revitalização da língua indígena, o Inyrybé, e também revitaliza a história e a memória dessa comunidade.”

Os recursos que chegam ao Maurehi são os mesmos destinados a qualquer outra unidade da rede estadual. Chromebooks, ar condicionado, quadra coberta, notebooks. “O que vem para cá ainda é visto de uma forma diferenciada para respeitar os princípios da educação escolar indígena”, diz Valéria. Os princípios são cinco: interculturalidade, respeito à língua materna, especificidade, diferença e comunidade.
“Em anos anteriores, a gente não tinha esse olhar. Hoje, os mesmos recursos que vão para qualquer unidade vêm para a educação escolar indígena também”, reforça a gerente. E não se trata apenas de material. Em 2022, Goiás realizou o primeiro concurso público da história do estado para professores indígenas e quilombolas. “Nunca tiveram o direito de ser efetivados. Isso é muito precioso.”
Outro marco foi o reconhecimento do nome das escolas. “A primeira coisa que a secretária Fátima Gavioli fez foi colocar no nome da escola a modalidade: Colégio Estadual Indígena. E todas passaram a ser colégios, para dar autonomia. Se atende o fundamental e quer passar a atender o médio, já tem a documentação pronta.” O gesto pode parecer pequeno, mas é imenso em simbolismo. “Numa lista de escolas do Brasil, rapidamente eu identifico as de Goiás. Isso é reconhecer, inclusive pelo nome.”
O calendário escolar também é específico. Todos os anos, a Seduc envia o calendário oficial às comunidades indígenas para que elas elaborem os seus próprios, respeitando festas, rituais e períodos de pesca. “Se essa comunidade olhar para o calendário oficial e falar ‘vamos manter’, é direito dela. Mas se quiser alterar, a gente orienta: sentem em roda, de forma comunitária, e planejem.” É um direito previsto na legislação brasileira, mas que poucos estados e municípios efetivamente garantem.
Goiás também inovou ao criar os primeiros livros didáticos escritos pelos próprios indígenas. “Eles estão concluindo a escrita de um livro. Os professores indígenas fizeram a escrita, com orientação da universidade, do Núcleo Takinahakỹ de Formação Superior Indígena (NTFSI), da Universidade Federal de Goiás (UFG). A Seduc está financiando todo o trabalho. Cada comunidade escrevendo o seu.”
Para Valéria, o que está em jogo é o direito ao protagonismo. “É o direito deles à sala de aula, à escrita do livro didático, às suas práticas pedagógicas. E para isso precisa documentar. O coração da escola é o projeto político-pedagógico. O que eles colocam ali precisa ser respeitado.”
A terra não se rende: Os Tapuia do Carretão
Deixamos a beira do Rio Araguaia e viajamos para mais ao lado no interior de Goiás. O território Tapuia do Carretão fica entre Nova América e Rubiataba. Diferente da aldeia Iny, que luta contra o cerco urbano, aqui a paisagem é de terra espalhada, lotes com criação de gado, roças, árvores frutíferas. A aldeia não é circular. As casas se distribuem ao longo de 1.743 hectares de terra demarcada e homologada. Setenta e oito famílias, 243 pessoas aldeadas. Mas a população tapuia total é bem maior, cerca de dois mil a dois mil e quinhentos indígenas, muitos vivendo nas cidades e até no exterior.
Quem nos recebe é o cacique Dorvalino Augusto da Silva Tapuia, 63 anos. Ele usa cocar e fala com a voz mansa de quem já carregou muitas lutas. “O pensamento de criar o colégio foi para buscar a cultura. O ex-cacique José Borges, meu tio, queria que tivesse uma escola para os alunos. A gente tinha perdido a cultura e foi resgatando”, conta.
A escola nasceu em 2004, mas o desejo era mais antigo. “Meu tio não chegou a ver a escola pronta. A gente batalhou, conseguiu apoio da diocese e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O bispo Dom Carlos fez uma campanha da fraternidade e conseguiu 22 mil reais. Fizemos uma parte. O resto, eu e o pai do ex-cacique fizemos com a mão de obra, voluntário. Aí os professores trabalharam seis meses sem receber. ‘Nós vamos vencer’, a gente dizia. E Deus ajudou que a gente conseguiu.”
A motivação era também proteger as crianças. “Tinha muita discriminação. O aluno ia para Valdelândia e lá precisava ter roupa boa, calçado. Aqui não. Aqui eles podiam vir de chinelo. De 2000 para cá, a gente teve outra vida.”
O Colégio Estadual Indígena Cacique José Borges atende hoje 45 alunos, do jardim ao ensino médio. As turmas são multisseriadas, uma característica das escolas do campo que aqui se soma à pedagogia indígena. Do oitavo ano em diante, o ensino é mediado pelo Goiás Tec, uma plataforma de educação a distância com professores de estúdio que transmitem aulas ao vivo para uma televisão na sala, com o apoio de professores mediadores, todos indígenas, que estão ali, presentes, acompanhando os alunos.
A coordenadora Adriana Rosário da Silva Tapuia, que trabalha na escola desde 2008, explica que o Goiás Tec chegou em 2019. “Foi bem no foco da Covid. Para nós foi um susto, porque não tínhamos essa modalidade. Mas aí veio a pandemia e o estado inteiro começou a trabalhar online. Isso deu um fortalecimento.” Hoje, as aulas televisionadas são complementadas pelas eletivas, disciplinas que permitem trabalhar a cultura: dança, pintura corporal, confecção de cocares e pulseiras.

“A gestão é toda indígena. Todos os professores são indígenas. A gente trabalha a educação específica e diferenciada do nosso povo”, diz o vice-cacique Wellington Vieira Brandão Tapuia, que também é presidente do Fórum Estadual de Educação Escolar Indígena de Goiás (FEEEI/GO) e membro da Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena (CNEEI).
Ele tem a fala articulada de quem já debateu políticas públicas em Brasília, e em um momento da entrevista, sua filha Kaylany, de 10 anos, chega e se abraça a ele, um gesto que diz mais sobre o que é ser tapuia do que qualquer discurso.
“O objetivo maior da escola é a revitalização da cultura. Hoje a gente trabalha os conhecimentos universais e também os conhecimentos tradicionais. Isso é respeitado dentro do nosso calendário.” Wellington explica que o projeto político-pedagógico foi construído pela própria comunidade.
“Ele atende os nossos anseios. Se eu tenho necessidade de um ancião vir contar uma história aqui hoje, o currículo atende isso. Antigamente, a Seduc tinha muita resistência. Foi uma batalha muito grande fazer com que eles entendessem o que é educação específica e diferenciada.”

E o que é, afinal, educação específica e diferenciada? “É um ancião vir e dar uma aula e não ficar voltado só no professor. É eu levar as minhas crianças no rio, na serra, na roça para plantar. Isso é educação escolar indígena. ‘Ah, mas que ensinamento você está tendo em um plantio de roça?’ Ali eu estou estudando matemática. Quantas sementes vou gastar? Quantos hectares nós plantamos? Isso é um sistema de medida. E é trabalhado na matemática”, explica o vice-cacique.
Uma luta sem fim
Wellington fala com paixão, mas também com realismo. “A luta por educação escolar indígena nunca vai parar. A cada dia, o movimento cobra mais coisas.” Ele cita a recente aprovação da Universidade Indígena, o curso de Educação Intercultural na UFG, o apoio de mestres e doutores. “Tudo isso faz com que a educação escolar indígena aconteça. E não só a educação, mas a cultura dessas comunidades.”
Uma das conquistas mais significativas dos últimos anos – e uma inovação em todo Brasil – foi a criação dos intérpretes de línguas indígenas. O programa nasceu da necessidade de muitas famílias indígenas que estão em situação de itinerância, morando nas cidades, e as crianças precisam de apoio para não sofrerem um choque linguístico e cultural ao se matricularem em escolas urbanas.
O intérprete é sempre um parente da mesma etnia. Ele acompanha o aluno no dia a dia, traduz os conteúdos, explica o contexto cultural. “O professor de matemática está ensinando geometria em português. O professor intérprete vai ensinar matemática na língua xavante, com toda a contextualização cultural”, explica Wellington.
Hoje, há intérpretes em Goiânia, Piranhas, Goiás Velho e mais regiões. “A população indígena está aumentando muito na cidade. Então a educação escolar indígena está itinerante também. Ela está acontecendo no estado todo.” E todos esses profissionais participam das formações continuadas promovidas pela Seduc e pelo Fórum.
O Fórum Estadual de Educação Escolar Indígena, presidido por Wellington, é a instância que articula as demandas dos três territórios: Tapuia, Iny e Avá-Canoeiro. “O Fórum foi criado justamente para cobrar políticas voltadas à educação escolar indígena. Tudo que tem de demanda, a gente chega na gerente Valéria e cobra. Ela cobra dos superiores. E a gente tem que ser atendido pela secretária da Educação.”
A relação com o governo, diz ele, é de parceria e vigilância. “Quando iniciou a educação escolar indígena, não tinha essas políticas. Tudo era via Ministério Público, denúncia. E as denúncias demoravam décadas. Hoje a gente tem políticas que destinam recursos para manutenção. A cada ano vem um recurso. Está faltando material didático? A gente cobra, o material vem.”
O Cacique Dorvalino complementa com a simplicidade de quem viu a roda girar. “Hoje estão aí, tem tudo aqui na escola. Eles vêm, estudam, buscam a cultura, dançam, fazem artesanato. A gente quer que cresça dia a dia. O futuro são eles.”
O que a terra ensina
Caminhamos pelo território tapuia acompanhados pelo cacique Dorvalino. Ele nos mostra as hortas plantadas e cuidadas pelos alunos: mamão, banana, limão, amora. Um casal de tucanos está à espreita, comendo frutas, até que nossa movimentação os faz voar. “Estão sempre aqui”, diz o cacique, com naturalidade. O local é rodeado de árvores frutíferas. Há um vento que não se parece com o vento da cidade, é mais limpo, ou talvez a gente é que esteja mais atento.
Valéria, a gerente da Seduc, nos acompanha e vai pontuando: “Esse espaço é território também. O ranchão ali é o espaço social da aldeia, onde se discutem as questões sociais, econômicas, políticas e de saúde. Tudo perpassa por aqui.”
A coordenadora Adriana completa: “São todos professores daqui, com graduação. Já caminhando para os mestrados, outros já com mestrado. Tivemos doutorado aqui dentro. E temos cientistas, psicólogas, alunos que saíram daqui do colégio e já estão com uma profissão, e muitos retornam para trazer o conhecimento de volta para a comunidade.”
O regimento da escola é uma salvaguarda: só podem trabalhar ali professores e funcionários tapuia. “Isso é para a proteção”, explica Valéria. “Até mesmo no concurso passado, iam mandar uma coordenadora de fora, mas esbarraram no regimento. Só entra aqui quem for tapuia.”
“O modelo de educação escolar indígena é construído pela própria comunidade. Hoje a gente tem o Projeto Político-Pedagógico sendo respeitado pelo órgão competente. Isso já é sucesso”, resume Wellington.
A voz das crianças
Sentamos com as crianças tapuia. Kaylany Brandão Tapuia, de 10 anos, filha do vice-cacique Wellington, está animada com nossa visita. Pede fotos, faz poses, mas quando perguntada sobre a escola, responde com uma maturidade desconcertante. “Aqui é muito bom porque a gente faz miçanga, joga vôlei, joga bola. Em outras escolas não é muito comum. Aqui a gente aprende um pouquinho na escola, um pouquinho em casa, um pouquinho com os avós.”
Ela aproveita e nos explica como se faz um cocar: “A gente precisa de pena, cordão. Amarra um monte de cordão em duas cadeiras, aí vai pôr as penas e amarrando.” E sobre o que é ser tapuia: “É um privilégio. É muito bom. A gente tem festas culturais, vem gente conhecer. Eu gosto de fazer pintura no braço, na perna, no rosto. Meu pai faz em mim.” E arremata, com a sabedoria de quem está sendo preparada para carregar um legado: “A importância é ensinar para os filhos como é que é, porque se algum dia alguém perguntar, é para eles saberem explicar a nossa cultura.”

Isabelly Lauany Brandão Tapuia, de 15 anos, estuda no colégio desde o jardim 1 e hoje está no primeiro ano do ensino médio. Sonha em ser médica cirurgiã. “Aqui somos todos parentes. Somos primos, tios, avós. Foi muito legal crescer aqui e aprender todas as culturas. A gente é muito unido, graças a Deus.”
Ela conta que a tinta de jenipapo, usada nas pinturas corporais, dura até quinze dias no corpo. Por isso, com as crianças menores, usam tinta guache para treinar. “Quando os meninos vão ficando maiorzinhos, a gente já vai treinando com a tinta de jenipapo, para sempre carregar a nossa cultura.”
Sobre o passado do seu povo, Isabelly fala com consciência histórica. “Antigamente era muito sofrido. Tinha posseiros, a gente tinha que ir para Goiânia, com animal, cavalo, e os animais sofriam, a gente sofria, em busca do nosso território. Hoje a gente tem o território demarcado. É muito gratificante ver essa transformação.”

Tão jovem, mas seguindo o exemplo de perseverança de seu povo, seu objetivo já está bem claro. “Eu quero terminar o terceiro ano, fazer faculdade em Goiânia e trazer a cultura do meu povo. Carregar o nome do meu povo Tapuia”, diz.
Uma carta que carrega amor
Já no fim da nossa estadia no Carretão, o Cacique Dorvalino contou uma história que não estava prevista. Ele se lembrou de um dia em que os alunos se juntaram e escreveram uma cartinha para ele. O conteúdo era simples. “Muito obrigado por nos ensinar tanto.” Ele contou isso com os olhos cheios d’água, a voz embargada, e disse que guardou o papel. “Um dia eu vou colocar em um quadro, para todos poderem ler.”
A imagem de um cacique guardando uma carta de agradecimento de crianças como se fosse um documento histórico é, talvez, a tradução mais precisa do que vimos em Goiás. Não se trata apenas de escolas, de currículos, de investimentos. Trata-se de vínculo. De um fio invisível que liga os mais velhos aos mais novos, os professores aos alunos, a comunidade à terra, e que é continuamente trançado, como as palhas de buriti, como as miçangas dos colares, como as penas dos cocares.
Uma das engrenagens que sustenta todo o ciclo de forças e processos
Para que o futuro de que fala o cacique Dorvalino não seja apenas desejo, existe uma estrutura, ou melhor, uma legião de mãos, que trabalha diariamente para que a política pública não vire promessa vazia. Viajamos até Rubiataba, onde funciona a Coordenação Regional de Educação, a CRE que abraça o território Tapuia. Quem nos recebe é a Dra. Jovenília Bié de Lima, coordenadora regional, a única cacica entre as quarenta coordenações regionais do estado de Goiás, título que os próprios Tapuia lhe concederam, ciente de que o cocar que ela carrega não é adorno, é pacto.
Logo na entrada, Jovenília faz questão de nos apresentar cada colaborador, um a um. Não é protocolo; é afeto. “Aqui nós temos um cuidado, um carinho, um apreço muito grande por todos eles”, diz, referindo-se ao Colégio Estadual Indígena Cacique José Borges. “É um colégio que foi pensado, elaborado para acolher toda aquela comunidade naquele território.”
A rotina da CRE é um vaivém incansável. Os assessores pedagógicos passam a semana dentro das escolas, segunda, terça, quarta, quinta, e retornam às sextas-feiras para as reuniões de alinhamento.
Eles chegam carregados de insumos: observações de sala de aula, dificuldades dos professores, avanços dos alunos, demandas de infraestrutura. E partem levando orientações, documentos, pesquisas, experiências que deram certo em outros cantos. “É o vai e vem, sempre levando e trazendo olhares novos, situações novas e também experiências exitosas”, explica a Dra. Jovenília.

A coordenadora fala desse movimento com a precisão de quem gere, mas também com a ternura de quem cuida. “É falar de vida, é falar de emoção, é falar de parceria, de valores, de ética, de equidade racial, de trabalho colaborativo. De uma equipe conectada.” E essa equipe não está conectada apenas entre si; está ligada diretamente à Seduc. “Tudo aqui que precisar, o cacique solicita, nós enviamos imediatamente à Secretaria. Nunca resolvemos sozinhos. Temos uma hierarquia, mas nunca recebemos um não. Sempre há possibilidade de atender o pedido.”
Ela conta que a ex-secretária Fátima Gavioli, em reunião com o ex-governador, Ronaldo Caiado, recebeu uma ordem que se tornou mantra: “Cuida desse povo, que eles são muito nossos.” O verbo cuidar, ali, ganhou concretude. A jornada ampliada do colégio indígena é um sucesso, diz Jovenília.
“E o colégio indígena, para nós, é uma riqueza. Vocês estão retornando de lá encantados, porque eles dão uma aula para nós todas as vezes que a gente vai lá. Tanto o grupo gestor, quanto o administrativo, quanto o docente, quanto os estudantes. A gente entende que eles estão ali realmente valorizando a cultura, valorizando a sua história, agregando tudo que é bom da educação, mas resguardando a cultura deles.”

Mensalmente, a CRE realiza reuniões com todos os gestores e coordenadores pedagógicos das escolas da região. O Colégio Indígena participa de todas. “E em todas as reuniões do Circuito de Gestão Goiano, eles sempre estiveram à frente. Antes mesmo de serem formalmente incluídos no Circuito, já faziam tudo e já traziam para nós experiências exitosas. De forma que eles sempre nos ensinaram. À frente, mas juntos.”
A frase reverbera. À frente, mas juntos. É assim que uma política pública deixa de ser caneta e papel e se torna gente. Quando a Dra. Jovenília nos mostra o fluxo de documentos, as assessorias pedagógicas, as reuniões de alinhamento, fica evidente que o que sustenta a educação indígena em Goiás não é apenas um orçamento e sim uma teia de pessoas que se recusam a deixar a burocracia engolir a humanidade.
O que o Brasil pode – e deve – aprender
A educação indígena em Goiás é nova. Começou a se estruturar como política pública há poucas décadas. Mas já se tornou um caso que transcende nacionalmente. Não é um modelo pronto para ser copiado mecanicamente, cada povo tem suas especificidades, e a tentativa de homogeneizar seria uma nova forma de violência. Mas há princípios que podem inspirar.
O primeiro é o respeito à autodeterminação. “A gente não aceita a imposição. A gente é autônomo. Nós sabemos as nossas necessidades com relação à educação. E nós que sabemos trabalhar essa educação”, diz Wellington. Essa autonomia se concretiza no projeto político-pedagógico construído pela comunidade, no calendário específico, na gestão indígena, nos professores indígenas.

O segundo princípio é a integração entre educação e território. “Educação indígena tem que ser do nosso jeito”, repete Wellington. E esse “jeito” inclui pescar, plantar, ouvir os mais velhos, fazer artesanato. “Quando a gente fala do ranchão, é território. É o espaço social da aldeia. Os estudantes circulam livremente, têm contato com as frutas, as plantas e os animais”, reforça Valéria.
O terceiro é o valor da oralidade e da escuta. “Hoje o celular não deixa uma criança escutar uma história. Infelizmente, isso tem impactado até nas aldeias. Mas a gente trabalha muito contra isso. Porque quando a gente ouve um ancião, isso significa que a gente vai ser multiplicador desses conhecimentos”, diz Wellington. “Eu, por exemplo, sei muitas histórias. Conto para meus filhos. Se eu não tivesse ouvido do meu avô, como ia contar para eles? E eu tenho certeza que meus filhos vão contar para os filhos deles.”
O quarto é o respeito como fundamento pedagógico. “A partir do momento que eu dou o respeito, eu vou ter o respeito. A criança percebe isso. Nossos filhos na aldeia, todos eles, até idade adulta, dão benção para os pais. Benção para dormir, benção para levantar. Isso é respeito.”
Wellington faz uma pausa e reflete sobre o que vê nas escolas não indígenas. “Hoje a gente vê em reportagens alunos agredindo professor. O professor já não está tendo condições de trabalhar. Nós, professores indígenas, a gente tem prazer em trabalhar. Porque é muito tranquilo, é muito calmo. O meu sonho seria que a população do Brasil entendesse o que é educação. E respeitasse a educação.”
Há também o aspecto da saúde mental. Valdirene, lá em Aruanã, já havia tocado nesse ponto. “O que é que hoje nós, seres humanos, estamos precisando? Ter mais contato com a natureza, mais contato com a liberdade, ouvir o pássaro. Você passa o dia inteiro olhando os status das pessoas e o dia acaba e você nem vê. Que tal fazer uma educação diferenciada? Levar esses meninos para a praia, para o rio, fazer uma trilha. Isso vai acalmar a mente deles para produzir mais, para ser uma pessoa melhor.”
O medo e a esperança
Voltamos à Aldeia Buridina para nos despedir. Valdirene está sentada perto da escola, observando o movimento do contraturno. Perguntamos qual é o maior medo dela em relação ao futuro da cultura Iny. Ela responde sem hesitar. “O maior medo é de, futuramente, eles se perderem. Não saber mais falar o Inyrybé. Não saber de onde veio. Não saber fazer uma Ritxòkò, um artesanato. Não saber a origem deles.”
Ela se lembra das palavras do antigo cacique, seu tio: “Ele falava: ‘futuramente a cidade vai invadir a aldeia e vocês vão ficar perdidos. Vai esquecer a língua materna. Vai esquecer de tudo. A partir desse momento, a aldeia acabou’. Eu tenho medo do futuro. Hoje nós estamos aqui na luta. Amanhã não vamos estar. Como serão esses jovens? Como vai ficar a mente, a vida desses jovens? A luta aqui por território é muito grande. Você imagina um jovem desse sem saber a origem, sem saber o seu passado, perdido. Ele vai viver no mundo da droga, da bebida. É isso que é o meu maior medo.”
Mas há também esperança. “A nossa esperança é isso aqui. É educação, escola indígena. É o que o Colégio Estadual Indígena Maurehi faz. Eu falo para os professores: ‘Hoje nós estamos aqui. Vamos dar o nosso melhor. Vamos mostrar a nossa cultura. Porque quando a gente não estiver mais nesse mundo, eu creio que pelo menos dois, três vão se levantar para poder continuar o nosso trabalho’.”
No Carretão, a esperança está guardada em uma cartinha. “Muito obrigado por nos ensinar tanto”, escreveram os alunos para o Cacique Dorvalino. Ele a guardou. Um dia, vai emoldurar. Para que todos leiam. Para que ninguém esqueça.
Três povos, um só chão
Goiás tem três povos indígenas aldeados. Nossa equipe visitou dois colégios, em dois territórios. Mas o terceiro povo, os Avá-Canoeiro, em Minaçu, também está inserido nessa mesma política, nesse mesmo esforço de reconhecimento e fortalecimento. Os Avá-Canoeiro são um povo de contato tardio, que passou por perseguições extremas e hoje luta para manter viva sua língua e sua cultura. Eles também têm sua escola, também constroem seu projeto político-pedagógico, também são atendidos pela gerência de educação indígena da Seduc, também participam das formações e do Fórum.
A diversidade étnica de Goiás não se limita aos territórios demarcados. O que vimos em Goiás não é perfeito. Há desafios como o transporte dos alunos entre as aldeias, a compra de matérias-primas para o artesanato, a necessidade de ampliar as salas de aula, a luta para que o ensino médio seja ofertado dentro dos territórios. Mas o que está acontecendo ali é, sem exagero, um exemplo para o Brasil.
Porque Goiás está provando que é possível fazer educação escolar indígena respeitando os princípios da interculturalidade, da especificidade, do multilinguismo e da comunidade. Está provando que é possível ter professores indígenas concursados, livros didáticos escritos pelos próprios indígenas, calendários específicos, gestão autônoma. Está provando que a educação pode ser um instrumento de defesa territorial, de justiça socioambiental, de saúde mental, de fortalecimento democrático.
Mas sabemos que há ainda uma imagem que o Brasil aprendeu a colar sobre os povos indígenas. Uma colagem grosseira, feita de retalhos mal cortados: o indígena que vive nu na floresta, que não trabalha, que não estuda, que ocupa terra demais, que parou no tempo, que perde a identidade se usar um celular. É uma fotografia falsa, mas persistente.
E após a viagem do Jornal Opção dentro de Goiás, podemos claramente constatar o completo oposto de cada uma dessas legendas. Encontramos povos que trabalham em mutirão, que constroem seus próprios ranchos de palha e madeira em um único dia, que plantam hortas cercadas com troncos de árvore derrubados e talhados por eles mesmos, que se organizam em associações, que brigam por concurso público, que escrevem livros didáticos, que ocupam cadeiras nas universidades. Encontramos uma educação que não pede licença para existir, que simplesmente existe, e ao existir, desmente.
Quando pensamos no poder da educação e pertencimento, uma história contada ficou conosco. Os meninos Iny iriam se apresentar na cidade com sua dança típica e pinturas corporais, mas no início estavam com vergonha de suas vestimentas e produção, mas, depois das palavras da cacique Valdirene “nós somos indígenas, nós somos Iny. Nossa cultura é linda! Nós não somos iguais a eles, eles não são iguais a nós, cada um é diferente. Então nós temos que valorizar nossa cultura mostrando”, arrumaram seus cocares, seus adornos, e dançaram.
“Verdade, tia. Vergonha de quê? Nós temos que estar orgulhosos do que somos. Nós estamos aqui para mostrar nossa cultura.” E é isso que a educação indígena em Goiás está fazendo: devolvendo o orgulho. Mostrando que a cultura não é um peso, é um lastro.
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